segunda-feira, 27 de junho de 2011

Cresce o fascínio pelos mistérios do céu noturno

(DIARIO DO NORDESTE) Apesar do interesse pela astronomia, está cada vez mais difícil ver astros em Fortaleza. Devido à poluição luminosa, a solução é fazer observações no Interior

O recente eclipse lunar, o temor das profecias de fim dos tempos, a difusão do conhecimento através da internet e a curiosidade pelo desconhecido. Tudo isto tem levado, cada vez mais, cearenses a observar o céu e a se envolver nessa magia que tanto causa fascínio e medo.

Prova disto é a plateia crescente a cada ano de novos visitantes no Planetário Rubens de Azevedo, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Foram mais de 28 mil visitações em 2010. "A gente tem percebido este aumento do interesse, principalmente, da juventude nos eventos astronômicos. Temos também um passado pioneiro que estimula muito a garotada a estudar", comenta o diretor do planetário, Dermeval Carneiro.

Em visita à Capital, o astrônomo e professor da Universidade de Campinas (Unicamp), Nelson Travnik, espantou-se com a qualidade do Planetário Rubens de Azevedo e com a curiosidade dos fortalezenses pelo assunto. "Hoje os planetários são verdadeiras salas de espetáculos. É muito rica e fascinante a experiência. Se aprende de tudo um pouco", ressalta Travnik.

As escolas também têm seu papel importante na formação de novos curiosos. Por incentivo dos professores, alunos se preparam anualmente para participar da Olimpíada Brasileira de Astronomia (OBA). Na última edição, mais de 900 estudantes do Ceará se inscreveram.

O jovem Ivanildo de Souza, 19, aluno da Escola de Ensino Médio Vivina Monteiro, em Icó, participou da OBA e não se arrepende de cada hora que deixou de se divertir para estudar. "É muito empolgante saber mais sobre os planetas. Quem sabe viro um astronauta famoso", sonha o garoto. Na Capital, os colégios 7 de Setembro e o Christus possuem observatórios.

A Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap) firmou parcerias para execuções de vários projetos de popularização da astronomia. "Lançamos um edital e aprovamos cinco propostas de museus, espaços de divulgação científicas e instituições de pesquisa", explica Cláudia Linhares, diretora científica da fundação.

Para o professor Dennis Weaver, membro do Clube de Astronomia de Fortaleza (Casf), o desenvolvimento de novas tecnologias e de aparelhos mais portáteis de observação auxiliaram nesta disseminação. "Hoje a gente se reune e vai para o interior realizar estudos. Somos cerca de 40 integrantes e sempre chega gente nova", informa.

Para os iniciantes, ele indica acessar sites e programas gratuitos que disponibilizam mapas e cartas astronômicas. "Na verdade, sempre houve interesse e curiosidade na observação do céu, o que estava faltando era o acesso da população à informação e a instrumentos que permitissem ver as belezas do céu com mais proximidade", ressalta o professor e integrante do Casf, Arnoldo Nunes.

Nesta época do ano, segundo Weaver, é possível flagrar eventos como: pedaços de aglomerados de galáxias, ver a via láctea na íntegra e enxergar Saturno e chuvas de meteoros que podem estar visíveis entre os dias 12 e 13 de agosto. "O grande problema ainda é a poluição luminosa. O número de estrelas caiu de seis mil visíveis para apenas 50 em Fortaleza", afirma.

HISTÓRICO
Pioneirismo e ousadia no CE

Astros, estrelas e meteoritos povoam o céu e a sala de estar de um dos astrônomos mais antigos do Ceará, o professor Cláudio Pamplona, 68. A paixão pela ciência é tamanha que, desde 1956, ele mantém na sua própria residência o Observatório Astronômico Herschel-Einstein (OAHE). No museu há de tudo um pouco: cerca de três mil livros, meteoritos raros, lunetas para observação e até filmagens e fotografias do que ele considera seres extraterrestre.

Para Pamplona, a vocação do Ceará é imensa. Não faltam talentos na terra do sol e do céu. Prova disto foi o pioneirismo em ações ousadas como a comprovação da teoria da relatividade em Sobral no ano de 1919 e os estudos feitos por Cláudio Pamplona e Rubens de Azevedo para a Agência Espacial Americana (Nasa). "Investigamos se havia risco ou não de explosões na lua antes dos astronautas partirem para o espaço. Temos muitas histórias e fomos responsáveis por vários avanços na área. Estamos colhendo frutos agora", diz o astrônomo que recebe visita de grupos interessados em observar o céu noturno.

Novos talentos

O estudante Victor Moura, 20, compõe a nova geração de apaixonados pela astrofísica. Apesar da pouca idade, já vislumbra grandes saltos: quer estudar fora, fazer mestrado no Canadá. Foi a curiosidade em saber mais sobre os mistérios do céu, dos buracos negros e nebulosas que lhe estimulou a abandonar o Curso de Engenharia Mecânica e cursar Física na Universidade Federal do Ceará (UFC). "Tem muita gente com o mesmo interesse que o meu. Só é uma pena não termos locais de formação no Ceará. Precisamos avançar mais neste campo do conhecimento", critica.

Dicas

Procure locais descampados, com poucos obstáculos para não atrapalhar a observação. Afaste-se de centros urbanos, com poluição luminosa e encontre locais altos

Imprima e use mapas celestes on line. Eles fornecem a posição atual dos planetas no céu

Locais com umidade acima de 70% são considerados impróprios à observação. A umidade do ar prejudica a visualização dos astros e pode danificar o equipamento

O meio mais fácil de avistar as constelações é descobrir duas ou três estrelas imediatamente reconhecíveis e usá-las para encontrar os demais grupamentos. As Três Marias são um bom começo para os iniciantes

Sempre observe com um companheiro. Ele pode lhe ajudar a confirmar as descobertas e registrar diferenças existentes

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O planetário Rubens de Azevedo é considerado um dos mais modernos do País e recebe cerca de 15 mil visitações por ano, na maioria, de alunos de escolas públicas de todo o Ceará
FOTOS: NATINHO RODRIGUES

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Victor Moura faz parte da nova geração de pesquisadores da astrofísica. Quer estudar no exterior e saber mais sobre os eventos astronômicos que tanto lhe causam fascínio
FOTOS: WALESKA SANTIAGO

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Cláudio Pamplona é um dos astrônomos mais antigos do Ceará. Mantêm na sua residência, desde 1956, o Observatório Astronômico Herschel-Einstein com várias relíquias

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Durante as exibições no Planetário, é possível conhecer mais sobre as constelações, os planetas e demais fenômenos. A marca do espaço é a interdisciplinaridade dos conteúdos


IVNA GIRÃO
REPÓRTER

OPINIÃO DO ESPECIALISTA
Por que não vemos mais tantas estrelas?

O homem sempre teve ao longo do tempo interesse pelo céu e o que nele ocorre. Modernamente, contudo, a maioria das estrelas está invisível nos céus de grandes cidades - não é diferente no céu de Fortaleza. Nós e nossos filhos apreciaremos cada vez menos a luz estelar em nossas noites. Infelizmente, esse problema continuará devido a mais moderna forma de poluição, a luminosa. Um dos grandes responsáveis por ela são as luminárias das vias públicas que projetam até cerca de 40% de luz na sua horizontal e para cima - no Brasil pode chegar até 60%. Grande parte das soluções adotadas consiste na troca de lâmpadas e na substituição de luminárias com desenho mais efetivo na iluminação do chão. Os ganhos obtidos com essas simples medidas são de pronto mensuráveis, seja na melhoria da saúde das espécies, na redução do uso de combustíveis, ou na diminuição da poluição ambiental. Não existe nenhuma ação ou programa público relativo às poluições luminosas. O Ceará não possui registro histórico do que vem ocorrendo e nenhum monitoramento é realizado.

José Carlos Parente
parente@fisica.ufc.br
Doutor em Física

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